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Camisa 12

O UNIVERSO VESTE VERMELHO E PRETO

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O UNIVERSO VESTE VERMELHO E PRETO

    Amanhã tem Fla-Flu.

    E eu,

    um sujeito irracionalmente desequilibrado,

    dono de uma petulância que me permite confundir a porra toda com a fantasia,

    perco a compostura quando o assunto é Flamengo.

    Total falta de lucidez.

    Excesso!

    O Flamengo é um fenômeno inexplicável!

    Amanhã,

    o Maracanã será palco de um Fla-Flu.

    Imaginem:

    de um lado,

    o maior do mundo,

    essa entidade mitológica,

    esse colosso;

    do outro,

    o FlorminenC,

    que entra em campo,

    evidentemente,

    porque alguém precisa fornecer o contraste.

    Não vejo filosofia com a bola rolando.

    No futebol,

    mulambada,

    eu sou mais um mulambo sem princípios flexíveis ou convicções sensatas:

    o Flamengo é o maior acontecimento da história da humanidade,

    e o FlorminenC é algo que,

    por alguma falha administrativa na organização do universo,

    recebeu autorização para disputar as Séries B e C e,

    eventualmente,

    aparecer na Série A.

    Me entendam mal.

    Foda-se!

    Foda-se o FlorminenC.

    Tenho dificuldade de reconhecer significância naquilo que,

    diante do Flamengo,

    assume voluntariamente a sua total insignificância.

    Sobre o futebol deles,

    eu penso:

    ah,

    coitados!

    Não existe time grande quando o adversário é o Flamengo.

    O Flamengo não joga.

    O Flamengo altera,

    interfere,

    modifica,

    provoca.

    Milhões de rubro-negros desenvolveram uma soberba óbvia.

    O óbvio ululante.

    Amanhã,

    estarei a defender a violação dos direitos humanos de todos os que renegam a existência flamenga desde o nascimento.

    E tudo isso sem amor.

    O Flamengo não é um clube para o qual eu torço.

    É um clube que me torce.

    A civilização pode estar desmoronando,

    mas,

    se o Lino recebe a bola entre as linhas,

    eu interrompo o apocalipse para observar a jogada.

    E amanhã tem Flamengo.

    E não há preparação tática que resolva a equação perdedora de quem vai nos enfrentar.

    E,

    antes que algum amigo das Laranjeiras venha me explicar que o FlorminenC tem tradição,

    quero deixar uma coisa muito clara:

    parem de caô.

    Amanhã,

    quando a bola rolar,

    o Flamengo será um transatlântico atravessando uma piscina infantil diante da arquibancada em ebulição.

    Se ganharmos por um gol,

    num jogo dificílimo,

    ainda assim direi que a nossa superioridade foi evidente.

    Se ganharmos por dois,

    direi que o placar foi econômico.

    Se ganharmos por três,

    direi que houve responsabilidade social.

    Se ganharmos por quatro,

    pararei com a filantropia esportiva.

    E,

    se perdermos,

    não me procurem.

    Estarei ocupado investigando as condições do gramado,

    questionando a geometria das traves e desenvolvendo uma tese de doutorado sobre a influência de fatores externos no resultado do jogo.

    Porque,

    se o Flamengo perder,

    será preciso apresentar documentos

    e uma defesa prévia antes que eu admita a derrota.

    Amanhã,

    eu quero ser ainda mais Flamengo do que sou hoje.

    Porque,

    a cada dia que passa,

    sou mais Flamengo do que no dia anterior.

    Sou um ser insuportável.

    Não um pouco insuportável.

    Não moderadamente insuportável.

    Sou o sujeito que bloqueiam nas redes sociais,

    que evitam no elevador e que identificam de longe no botequim pela maneira como começo a sorrir.

    Sou a encarnação humana da soberba rubro-negra.

    E,

    quando me perguntam por que tanta arrogância,

    respondo com a tranquilidade de um homem que acaba de explicar o óbvio a uma plateia de desavisados:

    - Uma vez Flamengo, sempre Flamengo!

    Amanhã,

    o sol nascerá para todos,

    é verdade.

    A democracia garante que os tricoflores também possam acordar,

    tomar banho,

    escovar os dentes e sair de casa.

    Mas há uma diferença fundamental entre ter direito à luz do sol e ao maior espetáculo da civilização.

    O FlorminenC tem todo o direito de entrar em campo.

    Mas o Flamengo tem a moral de lembrar ao mundo por que o futebol existe.

    Eu não sei se o Flamengo vai ganhar por um,

    por dois,

    por três ou por uma quantidade de gols que obrigue os organizadores a providenciarem uma segunda súmula.

    Não sou profeta.

    Sou Flamengo,

    o que é muito maior.

    Saudações rubro-negras.

    E meus sentimentos, antecipadamente,

    aos tricoflores que terão de explicar o resultado no grupo da família.

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