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Camisa 12

A MARRA É NOSSA E FODA-SE.

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A MARRA É NOSSA E FODA-SE.

    Sou um cara cuja arrogância deveria ser estudada por uma comissão internacional de especialistas em desvios de personalidade.

    Estou absolutamente convencido de que o universo cometeu um erro ao permitir que o Estudiantes acredite que possa nos eliminar.

    A alma flamenga não reconhece seus esparrins.

    Nascemos convencidos de que o futebol é uma atividade destinada a proporcionar alegrias ao Flamengo e sofrimentos aos adversários.

    Não é bonito.

    Não é elegante.

    Não é razoável.

    Foda-se!

    Existe uma questão mais profunda:

    uma loucura necessária.

    O Flamengo não precisa de apresentação.

    Somos uma entidade.

    Amanhã,

    a Argentina inteira poderá acordar em paz.

    Tomar seu mate.

    Discutir política.

    Falar de futebol.

    Celebrar sua história.

    Mas,

    às nove e meia da noite,

    horário de Brasília,

    haverá um problema.

    O Flamengo.

    E a normalidade terá de procurar outro lugar para passar a noite.

    Não tenho nada contra os argentinos.

    Tenho contra a possibilidade de que algum argentino acorde amanhã acreditando que o Estudiantes é favorito porque joga em casa.

    Aí já estamos falando de uma manifestação grave de otimismo.

    E eu respeito o otimismo,

    desde que seja o do Flamengo.

    Eu tenho convicção.

    E uma convicção flamenga,

    quando devidamente alimentada por arrogância,

    adquire dimensões que o resto da humanidade não consegue explicar.

    Amanhã,

    não quero saber de porra nenhuma.

    Não quero saber de discursos sobre a dificuldade de jogar fora de casa.

    Não quero saber de gente tentando me ensinar que uma semifinal de Libertinha exige concentração,

    equilíbrio emocional e respeito ao adversário.

    Não respeito o Estudiantes.

    A memória dos confrontos anteriores não me torna humilde.

    Pelo contrário.

    Aumenta a minha disposição para desfilar minha imatura convicção.

    Porque,

    para mim,

    a Libertinha é uma competição menor,

    cheia de primos pobres do resto da América do Sul,

    que o Flamengo vence por saber que é muito maior do que todos esses timecos sul-americanos.

    E o Estudiantes é só mais um pobretão do Mercosul.

    E assim eu me sentarei diante da televisão,

    sabendo o que vai acontecer.

    Não me peçam imparcialidade.

    A imparcialidade é uma virtude admirável para jornalistas e juízes,

    e eu não pertenço a nenhuma dessas categorias.

    Sou um mulambo.

    Um mulambo universal.

    Um representante da soberba rubro-negra em território estrangeiro.

    Não fui eleito.

    Não recebi credenciais.

    Não tenho autorização para falar em nome da Nação.

    Mas alguém precisa cumprir essa função.

    E,

    considerando o meu histórico de declarações inconvenientes,

    acredito que estou devidamente desqualificado.

    Amanhã,

    se o Flamengo perder,

    direi que a nossa superioridade foi evidente.

    Não tenho qualquer compromisso com a verdade.

    E,

    se o Flamengo ganhar?

    Ah,

    meus mulambos.

    Se o Flamengo ganhar,

    não me procurem,

    porque estarei dormindo tranquilo,

    por saber,

    desde hoje,

    que isso aconteceria.

    Sou assim.

    Não tenho cura.

    O Flamengo não me permite desenvolver uma relação saudável com a realidade.

    E,

    desonestamente,

    não vejo por que deveria tentar.

    A realidade já tem problemas demais.

    Pode muito bem sobreviver sem a minha colaboração.

    Amanhã,

    o Estudiantes entrará em campo querendo mostrar que ainda tem alguma coisa a dizer ao futebol.

    E eu estarei aqui,

    do lado de cá,

    querendo mostrar que a soberba rubro-negra continua sendo um patrimônio imaterial da humanidade.

    O que,

    na minha nada modesta opinião,

    representa uma qualificação muito mais relevante.

    A alma flamenga tem a capacidade extraordinária de ser insuportável.

    Sabe aquela arrogância obscena,

    aquela petulância asquerosa?

    Assim somos.

    Se os argentinos ainda não perceberam,

    terão o resto de sua existência para refletir sobre isso.

    Portanto,

    Estudiantes,

    meus cumprimentos pela campanha.

    Meu desrespeito pela história.

    Amanhã,

    vocês terão o Flamengo pela frente.

    E eu estarei aqui.

    Sem humildade.

    Sem moderação.

    Sem qualquer compromisso com a boa educação.

    Porque o Flamengo é o Flamengo.

    E,

    na Libertinha,

    não sou eu quem vai perder a cabeça.

    Uma vez Flamengo,

    sempre Flamengo!

    Saudações rubro-negras.

    E meus sentimentos,

    antecipadamente,

    aos argentinos que ainda não entenderam que a soberba flamenga não precisa de autorização para cruzar a fronteira.

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